QUANDO A FORÇA DA MULHER RURAL JÁ NÃO BASTA PARA VENCER A FOME : O OLHAR DE KANGUIMBO ANANÁS

De sol a sol, as mulheres rurais de Angola repetem nas lavras o mesmo gesto ancestral de rasgar a terra para sustentar as suas famílias. Elas são a espinha dorsal de uma agricultura de subsistência que hoje esbarra no limite da sobrevivência. Embora o país abrigue milhões de hectares de solo fértil prontos para prosperar, o esforço físico destas produtoras já não é suficiente para vencer a chamada “guerra do pão”.

Para analistas e escritoras que olham para o interior do país, o diagnóstico é claro: para alimentar o futuro, Angola precisa urgentemente trocar o empirismo da enxada pelo conhecimento aplicado.

Quem escuta a escritora, docente e analista angolana Kanguimbo Ananás falar, percebe rapidamente que o seu discurso não é feito de teorias de gabinete. É um discurso que cheira a realidade social sobre a dignidade humana.
Para a intelectual, Angola vive hoje uma transição dolorosa. As cicatrizes do passado colonial e da guerra civil prolongada deixaram marcas profundas na estrutura familiar, colocando a mulher muitas vezes como a única garante da sobrevivência familiar.

Embora as mulheres representem a maior densidade populacional de Angola, uma grande parte desta força motriz permanece invisível nas estatísticas de desenvolvimento, presa às amarras do analfabetismo. Kanguimbo Ananás recusa-se a aceitar que o debate sobre a igualdade de género se resuma a debates políticos em Luanda ou ao preenchimento de vagas por conveniência institucional.

“Tenho estado a dizer que não é por uma questão de cotas. Tem muito a ver com o investimento, com a intelectualidade, com as competências e as valências das mulheres. É preciso congregarmo-nos mais e valorizar aquela mulher que ainda não está alfabetizada”, defende.