Há provérbios que não se aprendem nos manuais de diplomacia, mas sim no chão batido da memória. Para Téte António, Ministro das Relações Exteriores de Angola, a geopolítica de um continente inteiro resume-se, às vezes, à crueza de uma metáfora popular: “Só quem teve uma ferida na língua conhece o gosto do sangue”.
Quando fala sobre a guerra e a reconstrução da paz em África, o chefe da diplomacia angolana não recorre apenas a tratados ou resoluções internacionais. Ele fala a partir da dor partilhada de um país que já sangrou.
“Nós tivemos essa ferida na língua. Nós sabemos o quão duro é viver as consequências de um conflito”, refere o Ministro.
O tom do ministro é de quem carrega a responsabilidade de devolver ao continente o que o seu próprio país um dia recebeu. Nos anos difíceis da luta pela independência e da guerra civil, Angola não caminhou sozinha; beneficiou da solidariedade de nações irmãs africanas e do mundo.
Hoje, na pele de mediador e diplomata, o ministro Téte António vê o papel de Angola e o do Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, enquanto “Campeão da Paz e Reconciliação” não como uma vaidade política, mas como um dever moral e solidário para com os vizinhos que ainda choram os seus mortos.
Na visão humanista que o ministro imprime à sua missão, há um rosto muito claro para a paz: o rosto da mulher. Afastando-se da frieza dos números, ele olha para a demografia do continente e vê nelas, as mulheres, a verdadeira força motriz de qualquer democracia.
“Não podemos imaginar o desenvolvimento sem pensar na mulher”, defende. “Ela é a transmissão da paz, da tranquilidade e da procura de soluções, desde o nosso nascimento até à nossa morte.”
Para o governante, as mulheres não são apenas estatísticas de vulnerabilidade, embora reconheça que são elas as que mais sofrem com o impacto devastador das armas. Elas são, essencialmente, a chave que falta nas mesas onde os homens decidem o destino dos povos.
O diplomata angolano recorda com orgulho o momento em que a diplomacia angolana teve de passar das palavras aos actos no complexo conflito que afecta o leste da República Democrática do Congo (RDC) e o Ruanda. A orientação que recebeu do palácio presidencial foi categórica e mudou a forma de negociar na Região dos Grandes Lagos.
“Fomos oreintados pelo Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, a não iniciar nenhuma sessão de mediação sem a presença feminina”.
Para o ministro, a diplomacia do futuro não se faz em salas fechadas, alheias à realidade das ruas. Faz-se com a sensibilidade de quem se lembra do sabor do próprio sangue e trabalha para que mais nenhuma língua em África tenha de o provar.
